A respeitada instituição de pesquisa em saúde Fiocruz está em uma nova fase de testes dos mosquitos Aedes infectados com bactérias que ajudam a reduzir a proliferação e contaminação da zika, dengue, chikungunya, febre mayaro e febre amarela.
A ideia pode parecer estranha e talvez assustadora a princípio, mas essa medida é fruto de um estudo de anos, financiado pelo Ministério da Saúde em parceria com as instituições Bill & Melinda Gates e National Institutes of Health.
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Entenda como funciona
O estudo vem sendo desenvolvido desde 2011 com o objetivo de minimizar a contaminação da população pelo vírus da zika, sendo posteriormente adicionado o da febre amarela, doenças transmitidas pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti.
De maneira simples, os pesquisadores infectam os mosquitos com uma bactéria que é comum entre outras espécies, a Wolbachia. Ela não faz mal ao inseto e não se propaga para o ser humano, porém, impede, em parte, o desenvolvimento do vírus no hospedeiro e a sua transmissão pela saliva.
Agora, uma nova leva de insetos contaminados com Wolbachia será solta em outras regiões do país, mais especificamente Campo Grande (MS), Belo Horizonte (BH) e Petrolina (PE). Nessa fase o orçamento recebeu mais R$ 22 milhões.
O objetivo é que os mosquitos contaminados se multipliquem e superem a quantidade dos não contaminados, sendo maioria em alguns anos. Isso vai levar a uma menor contaminação, até a erradicação da doença, no longo prazo.
Como foi feita a pesquisa

Inicialmente, o foco era eliminar somente o vírus da zika, pois era o grande problema no momento, causando problemas graves e até mortes. Porém, dada a similaridade entre os vírus da zika e febre amarela, expandiu-se as pesquisas para ambos.
Os testes mais recentes, que envolviam também o vírus da febre amarela, ocorreram em parceria entre o Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas), Fundação Ezequiel Dias (Funed) e (UFMG).
Método
Para testar a eficácia contra a febre amarela, os pesquisadores separaram dois tipos de vírus, o oriundo de humanos e outro do macaco, que foi o precursor do surto em Minas Gerais.
O próximo passo foi inserir, através da alimentação sanguínea dos mosquitos Aedes, esses vírus. Havia mosquitos já com a bactéria Wolbachia e outros, sem, para comparar os resultados.
A análise da evolução da infecção se deu a partir da análise da cabeça e tórax dos mosquitos, depois de sete, 14 e 21 dias de contaminação. A saliva só fica contaminada depois de 14 dias de infecção.
Foi observado que, nos mosquitos contaminados por Wolbachia, a disseminação de vírus foi muito menor do que nos que não continham a bactéria. Esse foi um estudo introdutório, sem saber ainda se o vírus tinha chegado à saliva, fonte de contaminação de humanos.
Passou-se para o estudo com camundongos, que receberam injeção com a saliva de Aedes contaminado, alguns com a bactéria e outros sem. Como resultado, observou-se que os camundongos que receberam a saliva do mosquito com a bactéria não foram contaminados, ao contrário do outro grupo, que foi todo contaminado.
Dessa forma, os pesquisadores acreditam que há fortes chances de se conseguir eliminar esses vírus através de vetores que não disseminam a doença, em parceria com a ampla campanha de vacinação.

