história do padre sem sobrenome
Crédito: Arquivo pessoal
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Padre de Curitiba relata como é viver sem sobrenome há 65 anos

Ele ganhou um sobrenome fictício para poder fazer seus documentos e seguir com a vida

Cada pessoa tem uma perspectiva particular sobre os verdadeiros valores e dificuldades da vida. Tudo vai depender da trajetória de cada um desde o nascimento. No caso do padre Francisco Miguel, grandes desafios já estavam presentes desde o dia em que ele veio ao mundo.

Em entrevista para o G1 Paraná, por conta da celebração do Dia do Padre, que foi em 4 de agosto, Francisco Miguel teve a oportunidade de dividir com os brasileiros a sua história de superação, que começou em uma infância marcada pelo abandono e culminou no mérito de ser o primeiro sacerdote negro ordenado por Dom Pedro Fedalto, que foi arcebispo de Curitiba de 1970 a 2004.

Uma infância de abandono

A infância do padre Francisco foi marcada pela fome, pelo abandono e por perdas. Ele nasceu em um barraco sem nem água encanada, em uma favela de São Paulo. Em pouco tempo ele ficou sem família, sozinho no mundo, e foi parar em um orfanato. Como ele mesmo diz, “já era só Deus e eu naquela época”.

No ano de 1964 ele foi deixado no Instituto Estadual de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha.

“A única vez que eu quase fui adotado foi ali. Um casal até queria me levar, mas como eles já tinham dois filhos de sangue, tive medo e não fui. Mas também, depois, nunca mais ninguém apareceu”.

Sem família e sem sobrenome

Para piorar a situação, um dia o orfanato pegou fogo e queimou a certidão de nascimento de várias crianças, incluindo a de Francisco. Não havia outro registro do seu nascimento, e assim ele nunca mais soube o seu verdadeiro sobrenome. Além de não ter família, ele cresceu sem saber das suas origens, pois nem poderia pesquisar pelo nome que herdou para encontrar outros parentes.

Então, para que ele pudesse fazer os seus documentos e seguir com a vida, ele ganhou um sobrenome fictício: Miguel. A partir de então ele aceitou que se chamaria Francisco Miguel e decidiu que construiria sua história pelo caminho do bem, pois essa sempre foi a sua essência, mesmo passando por tantas dificuldades, sem nunca ter sentido o amor de um pai e de uma mãe.

Uma única recordação

Crédito: Arquivo pessoal

Da infância, Francisco não tem nada a não ser as poucas memórias dos tempos de orfanato. Mas, recentemente ele conseguiu um folheto da missa de sétimo dia da avó Flora Berthier, que cuidou dele por um tempo quando ainda era bebê.

Um bom caráter que não foi abalado

Crédito: Arquivo pessoal

É claro que, ao longo da vida, Francisco teve vários momentos de tristeza, de raiva e de injustiça. Ele não sabia o que era ter uma família, era um jovem negro e pobre em um país preconceituoso e desigual. Mas ele seguiu seu coração, indo de um orfanato a outro, de São Paulo para o Paraná. Recebeu muitos “nãos”, mas nunca deixou de ter fé em si mesmo.

“Quantas vezes chorei, passei raiva, questionei porque os outros tinham família e eu não. Pequeno, ninguém me queria porque eu era negro, depois, porque eu já era grande. Crescer por si e não se abater é a maior das vitórias. Minha vida é minha maior riqueza”.

Apesar de tudo, o padre acredita que a sua vida não deveria ter sido diferente, pois foi essa trajetória que o fez chegar onde chegou. Foi por conta das suas vitórias que, hoje, ele é considerado por todos um exemplo de força e persistência.

A vocação para ser padre

Crédito: Arquivo pessoal

Quando já era um jovem independente, Francisco trabalhou na Prefeitura de São José dos Pinhais, no Paraná. Foi nessa fase da vida que ele conheceu o padre Hermes, do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe. Depois de cada dia de trabalho na prefeitura, Francisco tinha o compromisso de participar da missa e, ao final, conversar com o padre Hermes.

“Foi ali que contei que era meu sonho ser sacerdote, mas que nunca dava certo. Daí o padre Hermes marcou uma conversa com Dom Pedro Fedalto, e ele me acolheu na Arquidiocese de Curitiba. Entrei no seminário, fiz quatro anos de Teologia”.

Agora, ser um homem sem sobrenome já não era mais tão dolorido, pois Francisco havia sido nomeado diácono. A partir do dia 28 de fevereiro de 1988 ele passou a ser o primeiro negro ordenado por Dom Pedro Fedalto e, segundo a Arquidiocese de Curitiba, um dos primeiros padres negros da história da diocese.

“Ele era tão querido que não coube o povo na capela do salão do patronato, onde ele escolheu para ser ordenado. Sempre muito humilde, muito esforçado e fiel. Tenho admiração e louvor por ele. Depois da ordenação, comecei nomeá-lo para os cargos paroquiais”, relatou Dom Pedro Fedalto.

Francisco passou por mais de seis paróquias, até chegar na comunidade em que celebra atualmente, a Nossa Senhora do Rosário de Belém, no bairro Cajuru. “Considero Dom Pedro como o pai que eu nunca tive. Devo muito a ele. Nesse ano completei 32 anos como padre”, comentou.

Um breve regresso ao passado

Crédito: Arquivo pessoal

No ano de 2010, durante um batizado que fazia no domingo de Páscoa, Francisco foi procurado por uma mulher que alegava ser sua prima de algum grau. Eles conversaram, trocaram informações, e realmente havia verdade no que a mulher estava dizendo.

“Foi um susto bom. É bom encontrar alguém que conheça um pouco da minha história lá trás. Mas, nessa altura do campeonato, nem vale a pena ir atrás para confirmar mesmo, e as pessoas que poderiam dar alguma pista real já morreram. Na idade em que eu estou, não é mais isso que importa”, disse ele.

A mulher que procurou Francisco era de uma família com o mesmo sobrenome que estava no cartão da missa sétimo dia que ele encontrou da avó: Berthier. Esse sobrenome é de origem francesa, e significa ‘aquele que vem da França’ e ‘homem livre’. Talvez este fosse mesmo o sobrenome de Francisco, mas mesmo sem saber disso, ele escreveu a própria história como um homem livre.

“Fiz muitas amizades com padres, colegas de orfanato. Em toda paróquia que a gente passa, deixa um rastro de pessoas muito boas que estão ao teu lado, te ouvem, ajudam. Família mesmo é quem gosta de mim”, concluiu ele.

Hoje em dia, com a pandemia, o padre celebra suas missas online e deixa uma mensagem para aqueles que se sentem desamparados:

“Nunca, nunca, nunca abaixe a cabeça. Seja você o próprio impulso. É importante ter ao lado pessoas, mas só você pode transformar sua vida. Nenhum sobrenome me daria nada além do que eu mesmo conquistei”.

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