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Lições de um juiz que foi faxineiro por um dia

A troca de papéis com faxineiros, atendentes e cobradores serviu para desenvolver a empatia

Crédito: Arquivo pessoal

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A profissão de juiz pode não ser nada fácil. Imagine, ter que decidir sobre o futuro de outras pessoas, cada qual com seus motivos e em diferentes situações. Isso sem contar com a quantidade de processos que se deve ler todos os dias. Para garantir uma maior quantidade e acertos, é fundamental que os profissionais desenvolvam um maior senso de empatia.

Empatia é perceber no outro suas fragilidades, dificuldades e alegrias. É conseguir se colocar no lugar de alguém, mesmo que ela não tenha uma vida nem mesmo próxima da sua. Porém, é compreensível que para muitos juízes isso seja complicado, pois não tiveram que pegar ônibus lotado às 5 horas da manhã nem trabalhar duro sob o sol.

E isso não é descrédito, somente situações de vida diferentes. E como ele pode se colocar no lugar do que ele nem faz ideia do que se trata? Para resolver essa limitação no olhar dos magistrados, a Escola Judicial do TRT da 1ª Região lançou um projeto chamado Vivendo o Trabalho Subalterno. Nele, os juízes têm que passar o dia em profissões menos remuneradas, para entender a rotina.

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Juiz é faxineiro por um dia

E foi assim que diversos magistrados deixaram suas togas e foram pegar ônibus e metrô até sua experiência profissional mais desafiadora. Conheça o relato de alguns deles e o que aprenderam com essa rica vivência.

Auxiliar de limpeza

A juíza Cléa Couto passou pela extenuante experiência de ser auxiliar de limpeza por um dia. Conheceu muitas pessoas e recebeu ajuda dos colegas de trabalho. Pôde conhecer um pouco da natureza humana da necessidade de se mostrar superior. Em meio ao cansativo e repetitivo trabalho, foi questionada por uma recepcionista sobre a necessidade de varrer tantas vezes o local.

Ela percebeu que ou estava atrapalhando a conversa, ou ela simplesmente queria reforçar sua suposta superioridade. Seja como for, finalizou a tarefa e prosseguiu. Durante o dia, depois de limpar o banheiro a cada hora e retirar a luva mil vezes, sempre que tinha que abrir a porta, ela sentou. Não tinha água para beber, somente uma garrafa pet reutilizada, em que todos bebiam no gargalo.

Ela disse que um pouco antes de encerrar o turno, sua supervisora disse que era para ela ir lentamente para o vestiário e trocar de roupa. Lá, deveria esperar o momento exato para bater o ponto. “Obedeci. Eu, de fato, estava muito cansada. Meu longo dia de trabalho – trabalho cansativo, trabalho repetitivo, sem criatividade – chegou ao fim”, confessa a juíza.

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Caixa de supermercado

Crédito: CNJ

Apesar de sair cedo de casa, indo para o treinamento com mais outros dois colegas, o GPS os colocou em uma enrascada e acabaram se atrasando. Assim, a juíza Daniela Muller recebeu sua primeira reprimenda, já no treinamento. No mesmo dia, percebeu a distância social entre as classes, quando teve que escolher uma roupa que servisse à ocasião.

Passou pelo treinamento, sob olhares nada amigáveis, pois ela e os colegas eram as únicas pessoas brancas e atrasadas da sala. Além disso, não tinham nenhuma experiência anterior, ressaltando o ar de privilégio. Ninguém sabia que era um experimento social para desenvolver empatia.

Chegando no mercado onde trabalharia, Daniela foi apresentada ironicamente para todos os caixas, já que o turno da manhã é um privilégio que nenhum novato tem. Sua supervisora foi terrível e a juíza diz que foi “tomada por uma sensação de difícil descrição, um misto de raiva e incredulidade. Como pode ser cruel a situação de subalternidade!”.

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Ao final do dia, cansada, irritada, provocada e desesperada para voltar para casa, ainda teve que conferir o caixa. Além disso, todas as notas passavam por um equipamento e, se ele não aceitasse, ela deveria tirar do próprio bolso o valor. Um dia apenas na pele de um trabalho desgastante, mal remunerado e cheio de oportunidades para desenvolver a empatia.

Faxineiro por um dia

Crédito: CNJ

O juiz Hernani Ribeiro também teve a sua experiência como auxiliar de serviços gerais, também conhecido nas empresas como o faxineiro. Acordou cedo, se arrumou e foi de carro ao mesmo local onde trabalha, porém com o uniforme da limpeza. Entrou na área reservada para magistrados e lá estacionou. Um colega próximo parou ao lado e o viu, sem reconhecer. Claro que não recebeu sequer um bom dia.

Começou limpando os corredores de 13 andares do prédio, sendo proibido de entrar nas salas. Sua parceira de limpeza ficou com os banheiros, que ficavam prontos mais rapidamente, dando tempo para conversar. Em locais mais movimentados, foi orientado a limpar somente a área de trânsito intenso, pois leva tempo e ele não conseguiria fazer todos os andares.

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E foi o que ele percebeu. A tarefa levava mais tempo, pois ele ficou completamente invisível! Ninguém dava ao menos um passo para o lado, para que ele pudesse limpar. As áreas cercadas eram ignoradas e mesmo quando ele esbarrava o rodo nos sapatos (de propósito), não tinha resposta. Segundo o juiz, “foi chocante! Somente uma única pessoa (uma!), um advogado talvez (em razão do terno que usava), percebendo minhas atribuições fez a gentileza de se oferecer para levantar para que eu pudesse concluir o serviço”.

E o pior ficou para o final. Chamados para retirar os móveis de uma sala para outra que foi reformada, eles tiveram que carregar estantes pesadíssimas com arquivos. Até aí ok, mas quando tiveram a ideia de desmontar em blocos (simples e rápido) e remontar na outra sala, tornando o trabalho melhor, foram proibidos. Além disso, o servidor que proibiu “trancou os armários, alguns deles com objetos dentro. Senti-me ultrajado, humilhado, violentado até”.

Naquele dia, Hernani voltou pelo mesmo trajeto de todos os dias, porém com um olhar diferente da realidade. Em suas palavras, “certamente, as paisagens dentro de mim haviam se alterado sensivelmente. Experiência única, coisa de apenas um dia de labuta. O suficiente para me capturar em reflexões antes improváveis”.

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