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Como um golpista de Brasília engana o Brasil há anos

Talvez você já tenha ouvido a história de Walisson e nem desconfiou que era uma grande mentira
como um golpista de brasília engana o brasil há anos
Crédito: Arquivo Pessoal

O jornal Ponte, depois de publicar uma história em favor de Walisson dos Reis Pereira da Silva, encontrou indícios de golpe, através de inconsistências em datas e valores. A equipe de jornalismo foi atrás da história para entender o que estava acontecendo, investigando os fatos e tentando marcar uma entrevista, enviando algumas perguntas para Walisson responder. Conheça a história real do golpista de Brasília.

Walisson, o golpista de Brasília

A história de Walisson chama atenção por toda a dificuldade e superação que ele conta. Criado pela avó, sem nunca ter conhecido a mãe, ele se viu obrigado a morar com seu pai, um homem bruto, que o torturava constantemente, fazendo com que ele fugisse de casa e terminasse somente a oitava série, hoje, o nono ano.

Foi primeiro morar com sua mãe, que acabou conhecendo anos depois, mas não se deram bem. Nessa época resolveu morar nas ruas. Dormia na rodoviária de Brasília, comendo restos de alimentos e dormindo ao relento.

Foi um nobre coração que o ajudou a começar a sair dessa situação, oferecendo um comprovante de residência, para que ele pudesse terminar a escola e tentar o ENEM. Ele sabia que somente com a educação poderia sair daquela situação de vida.

Persistente, ele conseguiu entrar em uma faculdade particular e financiar o curso de Direito. Seu sonho era ser promotor, para que assim pudesse ajudar as crianças que não tinham apoio, estrutura ou a chance de sonhar.

Dormia na rodoviária e passava os dias em bibliotecas públicas ou na faculdade, estudando duro, para alcançar seus objetivos. Durante os anos de faculdade, nunca contou a ninguém da sua situação, por medo de ser discriminado, indo sem tomar banho para as aulas, alegando que estava saindo do trabalho.

No meio do curso, conseguiu um estágio, o suficiente para pagar somente o aluguel, com uma sobra de cerca de R$ 100, para as contas e alimentação. Sua geladeira estava sempre vazia, mas não seu coração, repleto de sonhos e esperança. Enfim, conseguiu terminar o curso, mas não tinha como pagar a festa de formatura. Solidária, a empresa organizadora financiou a festa para ele, mas ele não tinha roupa e seus dentes precisavam de tratamento, devido a rotina nas ruas.

Ele então solicitou uma vaquinha online para sua formatura, com data de encerramento prevista para 30 de julho de 2018. De acordo com o texto da vaquinha, “entre tantos desafios, Walisson tem mais um pela frente: juntar dinheiro para realizar o sonho de participar da festa de formatura“. E para isso, ele estava pedindo R$ 10 mil.

E aí começam as contradições. A formatura já não tinha sido dada pela empresa organizadora? Depois de algumas inconsistências, a equipe do jornal decidiu investigar.

A investigação

Depois de perceber essas e outras inconsistências, a reportagem decidiu ir direto à fonte: entrevistar o prórpio Walisson. A jornalista mandou por e-mail, mas acabou recebendo uma ligação do prórpio Walisson. Ele dava respostas evasivas, confusas e, ao final, deixou uma ameaça de processo.

A primeira inconsistência foi com relação à data da formatura, pois outras duas vaquinhas foram feitas com esse intuito: uma para 2016 e outra para 2018, sendo que essa última ainda está online.

Quando perguntado se o baile não tinha sido pago pela empresa, em doação, Walisson disse que, na realidade, era para um procedimento odontológico, já que viver nas ruas acabou danificando seus dentes. Porém, a equipe do jornal descobriu, através de uma fonte, que era um tratamento puramente estético, modinha entre os famosos, e que custava o valor de um carro popular.

Em uma das páginas de pedido de doação, que já foi excluída, o marido da prima dele escreveu: “tenho dó das pessoas que estão dando seu dinheiro suado e acreditando em tudo isso. Eu conheço a família e ele. Ele tem um HB20, tem processos, fez outras vaquinhas e a família disse que ele gastou o dinheiro à toa”.

Há também inconsistências com relação à capacidade financeira de Walisson, visto que em um processo aberto por falta de pagamento de uma instituição de ensino, foi solicitado o bloqueio dos bens dele, como um HB20, carro da marca Hyundai. Na entrevista, ele alegou se tratar de um presente de um namorado.

Em reportagem no site UOL, em 15 de novembro de 2016, Walisson disse que estava no oitavo semestre, ou seja, para se formar. Ele dizia que estagiava na Casa Civil e sonhava em conseguir fazer a festa de formatura, a ser realizada no ano seguinte.

Ele afirmava que recebia R$ 760, sendo R$ 500 para o aluguel e o resto para as despesas, não sobrando assim dinheiro para a festa de formatura. Seu grande erro foi esquecer que já tinha usado esse argumento com a UOL e fazer o mesmo com o jornal Ponte, que acabou publicando a reportagem, com os dados muito similares, no dia 8 de abril de 2018.

Nesse caso, ele disse que estava no nono semestre, afirmando novamente que estava recebendo os mesmos R$ 760. Só que, na vaquinha, que teve início no dia 04 de março de 2018, ele afirma estar desempregado.

Outra inconsistência. Afinal, ele está trabalhando ou não? De acordo com um funcionário do Tribunal Superior do Distrito Federal, que solicitou anonimato, ele responde a vários processos e por isso é conhecido por diversas varas.

Ao ser entrevistado, ele tentou se vitimizar, confundir, desdizer, tentou fazer com que a entrevistadora se sentisse culpada, finalizando com a seguinte frase: “Escreve aí no seu jornalzinho o que você quiser, mulherzinha da Ponte, que eu vou te processar. Meu corpo jurídico vai cuidar de tudo”.

Como alguém sem condições de comprar alimentos e fazer um tratamento dentário tem um corpo jurídico? No mínimo curioso. Esse tipo de notícia pode desanimar um pouco, mas é importante estar atento ao que acontece na sociedade. Claro que não é motivo para desistir de confiar e fazer o bem, mas apenas um alerta para que se mantenha um olho aberto.

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